"O aspecto formal do rap é o que mais me interessa hoje: as levadas enganosas, o dedo no botão do sinc, a distorção prosódica"
Sinto falta de opiniões lúcidas e “isentas” sobre o rap, estilo musical surgido no final dos anos 70 nos EUA. Sempre que alguém resolve se pronunciar sobre o tema, ou é pelo viés social e os benefícios dessa cultura à formação dos jovens, que foram salvos do crime, ou alguém condenando geral e irrestritamente (“rap, isso é música?”). Faltam, a bem dizer, análises estéticas sobre esse estilo que pouco a pouco vai amadurecendo (nem tão devagar assim, haja vista os Racionais MCs e seu último disco, “Chora Agora, Ri Depois”, verdadeira obra-prima da música brasileira).
Mas eis que, para minha surpresa, deparo-me com um trecho do blog Obra em Progresso, de Caetano Veloso, escrito em fevereiro deste ano, em que o artífice do movimento tropicalista se vale de uma abordagem ética e estética para falar de rap e suas “levadas enganosas”. Nada mais justo. Com a palavra, o “mano” Caetano:
Sou louco por hip-hop desde “Beat Street”, filme do início dos anos 80. Por causa dele compus “Língua”. Mas desde que vi garotos de moto com cara de zangados na Praça da Purificação, fazendo-a parecer-se muito com o Complexo do Alemão, tenho reação negativa imediata à política do rap. Em 1983 eu pensava que rap era a verdadeira música de protesto revolucionário: não era feita por intelectuais da classe média que se apiedavam dos favelados, mas por favelados. Hoje vejo que a moda da marra, o clima de bandidagem (mesmo que às vezes criticado na superfície) faz estrago e pode causar degenerescência em vez de libertação. Os Racionais permanecem como o grupo que fez “Sobrevivendo no inferno”, um dos mais importantes discos já feitos no Brasil. Mas o cômputo geral mostrando que há uma linha de influência que vem do gangsta rap até à Ilha do Dendê, com bravatas machistas-criminais e ostentação de champanhe e cadillacs, me causa profundo desconforto. Fica a glamurização de guerras entre facções de traficantes da coisa que mais odeio: a cocaína. O aspecto formal do rap é o que mais me interessa hoje: as levadas enganosas, o dedo no botão do sinc, a distorção prosódica. Claro que a política dessa cultura é mais complicada do que minha reação atual a ela. E os jogos formais são política bastante. Mas não posso pensar São Paulo na perspectiva do Brasil de hoje sem mencionar o câmbio por que passou minha apreciação dos Racionais e relacioná-lo com a reiterada notícia da queda da violência urbana nos dois grandes centros do país, mormente na capital paulista.
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