Pequeno grande clássico

11 jul

Esse nasceu clássico. Ou melhor dizendo, neoclássico. Jamais se fiou no cânone, não gostava de grandes obras, nem mesmo das mais aclamadas. Portanto nada de romance russo; não queria nem saber de Dante. Nutria um medo mórbido por epopéias e heróis, fossem gregos ou nórdicos. Talvez pelos mesmos motivos também odiasse ópera, além de detestar David Lean e Cecil B. DeMille. Em suma, bocejava durante as grandes histórias.

Só se interessava mesmo por aquilo que passasse batido pela crítica, pois tinha vocação para descobrir talentos. Seus achados, não raro, resumiam-se a um diretor vanguardeiro, um “antenas da raça”, provavelmente menos conhecido se comparado ao outro que nós conhecemos (e que ele irá condenar pelo fato de ser superestimado e popular). Nem é preciso dizer que ele vê no passado, de forma paradoxal, uma fonte infinita com sempre novas obras: manuscritos inéditos, cenas cortadas e material não-tratado.

Sem dúvida é aí que ele falha. A madeira, uma vez podre, não há verniz que baste.

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Caetano e os mano

30 abr
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"O aspecto formal do rap é o que mais me interessa hoje: as levadas enganosas, o dedo no botão do sinc, a distorção prosódica"

Sinto falta de opiniões lúcidas e “isentas” sobre o rap, estilo musical surgido no final dos anos 70 nos EUA. Sempre que alguém resolve se pronunciar sobre o tema, ou é pelo viés social e os benefícios dessa cultura à formação dos jovens, que foram salvos do crime, ou alguém condenando geral e irrestritamente (“rap, isso é música?”). Faltam, a bem dizer, análises estéticas sobre esse estilo que pouco a pouco vai amadurecendo (nem tão devagar assim, haja vista os Racionais MCs e seu último disco, “Chora Agora, Ri Depois”, verdadeira obra-prima da música brasileira).

Mas eis que, para minha surpresa, deparo-me com um trecho do blog Obra em Progresso, de Caetano Veloso, escrito em fevereiro deste ano, em que o artífice do movimento tropicalista se vale de uma abordagem ética e estética para falar de rap e suas “levadas enganosas”. Nada mais justo. Com a palavra, o “mano” Caetano:

Sou louco por hip-hop desde “Beat Street”, filme do início dos anos 80. Por causa dele compus “Língua”. Mas desde que vi garotos de moto com cara de zangados na Praça da Purificação, fazendo-a parecer-se muito com o Complexo do Alemão, tenho reação negativa imediata à política do rap. Em 1983 eu pensava que rap era a verdadeira música de protesto revolucionário: não era feita por intelectuais da classe média que se apiedavam dos favelados, mas por favelados. Hoje vejo que a moda da marra, o clima de bandidagem (mesmo que às vezes criticado na superfície) faz estrago e pode causar degenerescência em vez de libertação. Os Racionais permanecem como o grupo que fez “Sobrevivendo no inferno”, um dos mais importantes discos já feitos no Brasil. Mas o cômputo geral mostrando que há uma linha de influência que vem do gangsta rap até à Ilha do Dendê, com bravatas machistas-criminais e ostentação de champanhe e cadillacs, me causa profundo desconforto. Fica a glamurização de guerras entre facções de traficantes da  coisa que mais odeio: a cocaína. O aspecto formal do rap é o que mais me interessa hoje: as levadas enganosas, o dedo no botão do sinc, a distorção prosódica. Claro que a política dessa cultura é mais complicada do que minha reação atual a ela. E os jogos formais são política bastante. Mas não posso pensar São Paulo na perspectiva do Brasil de hoje sem mencionar o câmbio por que passou minha apreciação dos Racionais e relacioná-lo com a reiterada notícia da queda da violência urbana nos dois grandes centros do país, mormente na capital paulista.

As singularidades de João Pereira Coutinho

11 abr

Coutinho: influências de Paulo Francis e Nelson Rodrigues

por Edgard Murano

O português João Pereira Coutinho, nascido na cidade do Porto em 1976, sabe  equilibrar-se como poucos entre o jornalismo e a literatura. E, como poucos, esse prolífico escritor tem a oportunidade de se equilibrar entre diversas publicações, o que o torna conhecido além das fronteiras de seu país.

Formado em história da arte, já foi colunista dos semanários portugueses O Independente e O Expresso, e atualmente contribui para O Correio da Manhã, além de ser comentarista no programa A Torto e a Direito, no canal TVI-24 da televisão portuguesa.

Do lado de cá do Atlântico, Coutinho assina uma coluna semanal na Folha de S.Paulo. As crônicas que publicou no jornal brasileiro entre 2005 e 2008 foram reunidas numa coletânea chamada Avenida Paulista, já publicada em Portugal pela editora Quasi e recém-lançada no Brasil pela editora Record.

Dono de um texto conciso e direto, que esbanja vitalidade na abordagem de temas como cultura, política e vida pessoal – normalmente os três ao mesmo tempo -, ele se diz admirador do estilo contundente de jornalistas brasileiros, entre eles o dramaturgo e escritor Nelson Rodrigues e o crítico Paulo Francis.

Sobre o Acordo Ortográfico, se diz “visceralmente” contra, afirmando tratar-se de um assunto “inexistente” para a sociedade portuguesa, maquinado por “uma dúzia de sábios” que se julgam donos da língua.

Coutinho também tece comentários ácidos sobre outros fatos do idioma, como por exemplo a respeito das diferenças peculiares entre o português europeu e o brasileiro, o refinamento constante da língua, seu processo de evolução ao longo da história, questões de estilo e seu método de composição textual.

Em entrevista concedida por e-mail a Língua, o escritor se deixa conhecer política e estilisticamente, sobretudo em sua relação ambivalente com a cultura brasileira. Suas opiniões cáusticas e sua postura inconformista, no entanto, só fazem jus a tipos que tanto admira, como Nelson Rodrigues.

Você costuma dizer que “roubou impunemente” o estilo de Paulo Francis e Nelson Rodrigues. Que traços de estilo dos dois você mais admira e usa?
Bom, essa confissão era uma hipérbole, naturalmente. Mas aquilo que admiro em Francis e Nelson são coisas distintas, porque ambos eram distintos. O Paulo Francis conseguiu “desprovincianizar” a língua portuguesa devido a uma fortíssima influência inglesa, visível na frase curta, enxuta, despojada de ornamento. Isso dá um sentido de urgência e informalidade ao texto, que partilho e tento aplicar nos meus artigos. Com Nelson Rodrigues aprendi a importância de uma consciência fortemente moral (não confundir com “moralista”) em textos de circunstância.

Como essa consciência fortemente moral apreendida em Nelson Rodrigues se traduz no tipo de texto que você faz?
Pela defesa de uma posição que tem sempre implicações éticas, e não apenas “utilitaristas” ou “estéticas”. Ou seja: uma opinião deve expressar uma visão sobre a natureza humana, e não apenas sobre o assunto tido na sua singularidade radical.

Você diz que o Brasil lhe legou contundência. O que quis dizer com isso?
Essa contundência deve-se ao fato de o jornalismo brasileiro ser profundamente influenciado pelo americano. Na Europa, a imprensa é mais palavrosa; nos Estados Unidos, e basta lembrar o caso de Hemingway como jornalista e escritor, o texto jornalístico é um texto de fatos, não de adjetivos. O Brasil conseguiu traduzir isso para a língua portuguesa e a minha aprendizagem deu-se por aí: por via brasileira.

Por escrever para um veículo brasileiro, incorporou elementos da variante brasileira do português ao seu estilo?
Sou incapaz de analisar o meu “estilo”; não sei o que é brasileiro e o que é português nele. Sei apenas que é o produto das minhas leituras, das minhas reflexões, das minhas referências – e o resultado é aquele.

Você tem alguma preocupação especial quando escreve para o público brasileiro no tocante à linguagem e aos temas abordados?
Não tenho nenhuma preocupação desse gênero. Escrevo como escrevo para a imprensa portuguesa.

A diferença de linguagem entre brasileiros e portugueses traduz diferenças culturais entre os dois países? Qual (quais) diferença(s)?
Naturalmente que sim. A língua é produto de uma evolução histórica e cultural.

O que é mais intrigante pra você na variante brasileira do idioma português?
De certa forma, e contrariamente ao que as pessoas possam pensar, o português do Brasil sempre me pareceu mais arcaico (ou, se preferir, menos moderno) do que o português de Portugal. Isso pode parecer estranho, porque toda a gente tem a impressão de que o Brasil fala um português mais “solto”, mais “moderno”. Mas eu tenho a impressão contrária e creio mesmo que os portugueses do século 16 ou 17 falavam como os brasileiros falam hoje: uma linguagem mais musical, plena de arcaísmos (como “açougue”, por exemplo).

Em sua opinião, qual é o grande sinal de modernidade da variante europeia da língua portuguesa?
O crescente refinamento da língua – refinamento gramatical, vocabular etc. -, visível, por exemplo, na poesia e no romance portugueses dos dois últimos séculos (Eça, Pessoa, Agustina, Saramago etc.)

Há algo que o português brasileiro não exprime tão bem quanto o europeu? E vice-versa? Lembro que por aqui se costuma estranhar o sentido europeu de “bicha” ou “estou a vir”…
Não consigo pensar em nada de particular, exceto na linguagem da intimidade. “Vou gozar” sempre me pareceu um pouco ridículo. Não me lembro de nenhuma outra, confesso.

Qual sua opinião sobre o acordo de unificação ortográfica?
Sou contra. Visceralmente contra. Filosoficamente contra. Linguisticamente contra. Começo por ser contra com a força das minhas entranhas: sou incapaz de aceitar que uma dúzia de sábios se considere dona de uma língua falada por milhões. Ninguém é dono da língua. Ninguém a pode transformar por capricho. Por capricho, vírgula: por mentalidade concentracionária, em busca de uma unidade que, para além de impossível, seria sinistra. A língua é produto de uma história; e não foram apenas Portugal e Brasil que tiveram a sua história, apresentando variações fonéticas, lexicais ou sintáticas; a África, Macau, Timor e Goa, que os sábios do Acordo ignoram nas suas maquinações racionalistas, também têm direito a usar e a abusar da língua.

Como você toma a reação dos portugueses ao Acordo?
Os portugueses não têm posição sobre o Acordo; é um assunto que não existe na sociedade portuguesa.

É verdade que os portugueses consideram que o Acordo é uma tentativa de abrasileiramento da língua portuguesa?
Alguns portugueses, sim: entendem o Acordo como uma intrusiva colonização brasileira da língua. Mas os meus pontos de discórdia não lidam com essa preocupação.

Os portugueses sentem, em alguma medida, que seu idioma se encontra isolado na Europa?
Pelo contrário: os portugueses alimentam a crença, obviamente infantil, de que pelo fato de falarem português, são também capazes de falar espanhol ou italiano.

Como avalia a língua portuguesa no cenário internacional?
A língua, normalmente, acompanha o crescimento econômico dos povos que a falam. Existem exceções, claro (China, mandarim). Mas se o inglês é a língua franca, isso deve-se à supremacia econômica da Inglaterra (século 19) e dos Estados Unidos (século 20). Se o português será uma língua importante no futuro, isso dependerá, essencialmente, do papel econômico do Brasil no mundo.

Você já disse que o ponto e vírgula é um “animal textual em vias de extinção”. Há outros recursos da língua que você considera pouco utilizados?
Talvez o hífen; ou seja, o hífen e o ponto e vírgula introduzem pausas leves no texto, tornando-o mais leve, ritmado, musical.

Como funciona seu processo de composição de textos?
A composição mental é demorada e dolorosa; pode durar dias. A execução técnica é rápida e praticamente instantânea.

Você segue alguma rotina em particular antes de começar a escrever?
Várias. Normalmente leio de manhã, escrevo de tarde, cultivo os prazeres à noite.

Qual a técnica para quem deseja escrever um texto com clareza?
O melhor conselho é o de George Orwell: escrever com clareza é decorrência de pensar com clareza. Touché!

Há uma técnica para quem deseja escrever crônicas?
Ler muito. De certa forma, e em termos proporcionais, ler mil páginas para escrever uma. Ler 2 mil para escrever duas. E por aí afora.

Publicado na revista Língua Portuguesa, número 42, abril de 2009
http://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=11725

Saul Steinberg

3 abr

Me fez pensar um artigo sobre o cartunista Saul Steinberg (1914-1999), do crítico Rodrigo Naves, na primeira edição da revista Serrote, do Instituto Moreira Salles.

O desenho metalinguístico de Steinberg chama a atenção para a materialidade do traço, responsável pelo frescor e espontaneidade de suas sacadas visuais, antecipando conquistas de artistas como Basquiat e Andy Warhol, por exemplo. Foi autor de capas célebres para a lendária revista New Yorker.

Farpas, alfinetes, espinhos

28 mar

Era o que se podia esperar do convívio com alguém que sabe mais do que você. Um espírito pernóstico cujos olhos se comprazem com elogios, mas marejam sob críticas. É dessa espécie que tem sempre muita consideração pelo próximo, que trata a todos por “colega”.

E há sempre os enroscos, as pontas empenadas em sua conduta irrepreensível, ao que me ocorre uma lixa para desbastá-la, polir suas arestas e diminuir o atrito.

Mas de que adianta tudo isso, pensei agora, se a madeira ainda está verde?

O mesmo

11 out

Conhece o rancor como à palma da mão. Obstinado, aonde o ódio for ele estará. É um doido varrido, raivoso – um tolo! – que em seus dias mais doces pecou pelo mau gênio. É tão intenso que deixa tonto.

Desde que o conheci ouço dizer que vai escrever um romance. É curioso vê-lo organizar em fichas a vida de personagens que nunca entraram em cena, fazer versos que ninguém mais ousaria (míope leitor de si mesmo), essa espécie de camicase que ensaia a própria morte várias vezes, que pede a fala mas nunca termina o que ia dizer…

No osso

30 ago

A expressão “chegar ao osso” não é banal nem gratuita: nos conduz à revelação última, íntima (caídos todos os véus); manifesta o desejo de atingir o núcleo duro, o tutano das coisas. Segundo a metáfora anatômica, “linguagem de medulas e espinhas”. É a desconstrução do objeto até chegar à estrutura seca, ou o que o açougueiro faz quando livra a carne da gordura e atira o osso aos cães.

Abaixo, minha tradução (incompleta) para o poema Bone dreams (Sonhos ósseos), do poeta irlandês Seamus Heaney:

*

SONHOS ÓSSEOS

I

Osso branco encontrado
no pasto:
a áspera, porosa
língua do toque

e sua impressão amarela
grelhada na grama—
pequeno resíduo de um naufrágio.
Frio como pedra,

duro de encontrar, pepita
de giz
que toco outra vez
e a refresco

no estilingue das ideias
para cravá-la na Inglaterra
e seguir seus saltos
em campos estrangeiros.

II

Casa óssea:
um esqueleto
nas velhas masmorras
da língua.

Refuto
com as dicções
os dosséis elisabetanos.
Os artifícios dos normandos,

as primaveras eróticas
da Provença
e o latim de hera
dos homens da igreja

ao som metálico
da pá, clarão
do aço consonantal
crivando a linha.

(…)