
Coutinho: influências de Paulo Francis e Nelson Rodrigues
por Edgard Murano
O português João Pereira Coutinho, nascido na cidade do Porto em 1976, sabe equilibrar-se como poucos entre o jornalismo e a literatura. E, como poucos, esse prolífico escritor tem a oportunidade de se equilibrar entre diversas publicações, o que o torna conhecido além das fronteiras de seu país.
Formado em história da arte, já foi colunista dos semanários portugueses O Independente e O Expresso, e atualmente contribui para O Correio da Manhã, além de ser comentarista no programa A Torto e a Direito, no canal TVI-24 da televisão portuguesa.
Do lado de cá do Atlântico, Coutinho assina uma coluna semanal na Folha de S.Paulo. As crônicas que publicou no jornal brasileiro entre 2005 e 2008 foram reunidas numa coletânea chamada Avenida Paulista, já publicada em Portugal pela editora Quasi e recém-lançada no Brasil pela editora Record.
Dono de um texto conciso e direto, que esbanja vitalidade na abordagem de temas como cultura, política e vida pessoal – normalmente os três ao mesmo tempo -, ele se diz admirador do estilo contundente de jornalistas brasileiros, entre eles o dramaturgo e escritor Nelson Rodrigues e o crítico Paulo Francis.
Sobre o Acordo Ortográfico, se diz “visceralmente” contra, afirmando tratar-se de um assunto “inexistente” para a sociedade portuguesa, maquinado por “uma dúzia de sábios” que se julgam donos da língua.
Coutinho também tece comentários ácidos sobre outros fatos do idioma, como por exemplo a respeito das diferenças peculiares entre o português europeu e o brasileiro, o refinamento constante da língua, seu processo de evolução ao longo da história, questões de estilo e seu método de composição textual.
Em entrevista concedida por e-mail a Língua, o escritor se deixa conhecer política e estilisticamente, sobretudo em sua relação ambivalente com a cultura brasileira. Suas opiniões cáusticas e sua postura inconformista, no entanto, só fazem jus a tipos que tanto admira, como Nelson Rodrigues.
Você costuma dizer que “roubou impunemente” o estilo de Paulo Francis e Nelson Rodrigues. Que traços de estilo dos dois você mais admira e usa?
Bom, essa confissão era uma hipérbole, naturalmente. Mas aquilo que admiro em Francis e Nelson são coisas distintas, porque ambos eram distintos. O Paulo Francis conseguiu “desprovincianizar” a língua portuguesa devido a uma fortíssima influência inglesa, visível na frase curta, enxuta, despojada de ornamento. Isso dá um sentido de urgência e informalidade ao texto, que partilho e tento aplicar nos meus artigos. Com Nelson Rodrigues aprendi a importância de uma consciência fortemente moral (não confundir com “moralista”) em textos de circunstância.
Como essa consciência fortemente moral apreendida em Nelson Rodrigues se traduz no tipo de texto que você faz?
Pela defesa de uma posição que tem sempre implicações éticas, e não apenas “utilitaristas” ou “estéticas”. Ou seja: uma opinião deve expressar uma visão sobre a natureza humana, e não apenas sobre o assunto tido na sua singularidade radical.
Você diz que o Brasil lhe legou contundência. O que quis dizer com isso?
Essa contundência deve-se ao fato de o jornalismo brasileiro ser profundamente influenciado pelo americano. Na Europa, a imprensa é mais palavrosa; nos Estados Unidos, e basta lembrar o caso de Hemingway como jornalista e escritor, o texto jornalístico é um texto de fatos, não de adjetivos. O Brasil conseguiu traduzir isso para a língua portuguesa e a minha aprendizagem deu-se por aí: por via brasileira.
Por escrever para um veículo brasileiro, incorporou elementos da variante brasileira do português ao seu estilo?
Sou incapaz de analisar o meu “estilo”; não sei o que é brasileiro e o que é português nele. Sei apenas que é o produto das minhas leituras, das minhas reflexões, das minhas referências – e o resultado é aquele.
Você tem alguma preocupação especial quando escreve para o público brasileiro no tocante à linguagem e aos temas abordados?
Não tenho nenhuma preocupação desse gênero. Escrevo como escrevo para a imprensa portuguesa.
A diferença de linguagem entre brasileiros e portugueses traduz diferenças culturais entre os dois países? Qual (quais) diferença(s)?
Naturalmente que sim. A língua é produto de uma evolução histórica e cultural.
O que é mais intrigante pra você na variante brasileira do idioma português?
De certa forma, e contrariamente ao que as pessoas possam pensar, o português do Brasil sempre me pareceu mais arcaico (ou, se preferir, menos moderno) do que o português de Portugal. Isso pode parecer estranho, porque toda a gente tem a impressão de que o Brasil fala um português mais “solto”, mais “moderno”. Mas eu tenho a impressão contrária e creio mesmo que os portugueses do século 16 ou 17 falavam como os brasileiros falam hoje: uma linguagem mais musical, plena de arcaísmos (como “açougue”, por exemplo).
Em sua opinião, qual é o grande sinal de modernidade da variante europeia da língua portuguesa?
O crescente refinamento da língua – refinamento gramatical, vocabular etc. -, visível, por exemplo, na poesia e no romance portugueses dos dois últimos séculos (Eça, Pessoa, Agustina, Saramago etc.)
Há algo que o português brasileiro não exprime tão bem quanto o europeu? E vice-versa? Lembro que por aqui se costuma estranhar o sentido europeu de “bicha” ou “estou a vir”…
Não consigo pensar em nada de particular, exceto na linguagem da intimidade. “Vou gozar” sempre me pareceu um pouco ridículo. Não me lembro de nenhuma outra, confesso.
Qual sua opinião sobre o acordo de unificação ortográfica?
Sou contra. Visceralmente contra. Filosoficamente contra. Linguisticamente contra. Começo por ser contra com a força das minhas entranhas: sou incapaz de aceitar que uma dúzia de sábios se considere dona de uma língua falada por milhões. Ninguém é dono da língua. Ninguém a pode transformar por capricho. Por capricho, vírgula: por mentalidade concentracionária, em busca de uma unidade que, para além de impossível, seria sinistra. A língua é produto de uma história; e não foram apenas Portugal e Brasil que tiveram a sua história, apresentando variações fonéticas, lexicais ou sintáticas; a África, Macau, Timor e Goa, que os sábios do Acordo ignoram nas suas maquinações racionalistas, também têm direito a usar e a abusar da língua.
Como você toma a reação dos portugueses ao Acordo?
Os portugueses não têm posição sobre o Acordo; é um assunto que não existe na sociedade portuguesa.
É verdade que os portugueses consideram que o Acordo é uma tentativa de abrasileiramento da língua portuguesa?
Alguns portugueses, sim: entendem o Acordo como uma intrusiva colonização brasileira da língua. Mas os meus pontos de discórdia não lidam com essa preocupação.
Os portugueses sentem, em alguma medida, que seu idioma se encontra isolado na Europa?
Pelo contrário: os portugueses alimentam a crença, obviamente infantil, de que pelo fato de falarem português, são também capazes de falar espanhol ou italiano.
Como avalia a língua portuguesa no cenário internacional?
A língua, normalmente, acompanha o crescimento econômico dos povos que a falam. Existem exceções, claro (China, mandarim). Mas se o inglês é a língua franca, isso deve-se à supremacia econômica da Inglaterra (século 19) e dos Estados Unidos (século 20). Se o português será uma língua importante no futuro, isso dependerá, essencialmente, do papel econômico do Brasil no mundo.
Você já disse que o ponto e vírgula é um “animal textual em vias de extinção”. Há outros recursos da língua que você considera pouco utilizados?
Talvez o hífen; ou seja, o hífen e o ponto e vírgula introduzem pausas leves no texto, tornando-o mais leve, ritmado, musical.
Como funciona seu processo de composição de textos?
A composição mental é demorada e dolorosa; pode durar dias. A execução técnica é rápida e praticamente instantânea.
Você segue alguma rotina em particular antes de começar a escrever?
Várias. Normalmente leio de manhã, escrevo de tarde, cultivo os prazeres à noite.
Qual a técnica para quem deseja escrever um texto com clareza?
O melhor conselho é o de George Orwell: escrever com clareza é decorrência de pensar com clareza. Touché!
Há uma técnica para quem deseja escrever crônicas?
Ler muito. De certa forma, e em termos proporcionais, ler mil páginas para escrever uma. Ler 2 mil para escrever duas. E por aí afora.
Publicado na revista Língua Portuguesa, número 42, abril de 2009
http://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=11725